Jóias Indóceis tem início na investigação da tradição dos retratos em miniatura — historicamente vinculados às elites europeias — a partir de um deslocamento radical de sujeito e de contexto. Ao reinscrever nesse formato corpos e narrativas marginalizadas, a série tensiona os regimes de visibilidade e valor que sustentaram tais objetos.
Operando na fronteira entre pintura e escultura, os camafeus são concebidos como artefatos táteis, íntimos, quase secretos. Contudo, ao serem expostos e difundidos digitalmente, ativam uma inversão: aquilo que foi feito para a proximidade torna-se público, sem perder sua escala sensorial.
Depois, incorpora outros elementos e personagens, todos vinculados a sexualidade e comunidade LGBTQIAPN+, de modo a expandir seu inventário de possibilidades e inclusividade, não apenas se concentrando em figuras históricas passadas, mas do cotidiano. Dentre os elementos incorporados estão glandes, mamilos e grelos, entr outros, que dialogam com drags que foram importantes no crescimento e maturidade do artista, como Lola Batalhão e Laura de Vison.
A escolha de materiais como FIMO e Lego — industriais, acessíveis e produzidos em antigos centros coloniais — desloca a lógica da preciosidade, instaurando uma ideia de “joia decolonial”. Nesse gesto, a série articula crítica material e simbólica, evidenciando a persistente desvalorização de determinadas vidas.
Entre o íntimo e o político, o sensível e o dissidente, Jóias Indóceis condensa, em pequenas superfícies, disputas históricas amplas, afirmando identidades, sexualidades e memórias que resistem ao apagamento.